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Era uma vez uma cidade e nela os carros reinavam felizes e dominantes. Haviam conquistado seu espaço na cadeia tecno-humana-evolutiva.

Dominavam as ruas e as faixas de pedestres. As calçadas e todos os espaços vagos dentro e fora de edifícios cinzentos.

Num belo ano, resolveram pintar o mês de maio de amarelo e olha só, existiam pessoas caminhando na cidade! Que incrível!

E assim, como na história de Dorothy, todos passaram a usar óculos com lentes amarelas e a cidade ficou mais humana e menos metálica, vivendo todos felizes e em harmonia com as Leis e o respeito aos pedestres no trânsito.

Não, não estamos num spinoff do transformers. Estamos no mundo real. E neste mundo há uma particularidade: os humanos ficam invisíveis quando estão fora de seus veículos. As pessoas os vestem como armaduras da visibilidade e da imponência. Como a história da “roupa do Rei” ao contrário. Todos estão vestidos com seus carros pra todo mundo ver.

Mas quando deixam seus veículos estacionados como troféus do suposto ganho de tempo e conforto, as pessoas se tornam invisíveis.

Há um tempo atrás fizeram uma campanha publicitária sobre a faixa de pedestres. A agência responsável através de técnicas de neuromarketing concluiu que os motoristas não enxergavam a faixa de pedestres. A minha opinião, é que os motoristas não enxergam os pedestres! E ser invisível tem lá suas vantagens mas também suas agonias. Perceber o que é estar lá, na rua, tentando atravessar na faixa; ou estar lá naquele cruzamento esperando aquele segundo que você tem pra atravessar enquanto os faróis mudam do verde para o vermelho… antes que um carro dobre a direita!

Mas aprendemos muito nesse mundo da invisibilidade!

Aprendemos a aproveitar o momento! Sim, atravessamos quando dá, fora da faixa mesmo, na diagonal, correndo, por entre os carros, por entre as motos.

Aprendemos a ser humildes e generosos! Praticamente rogamos clemência ao motorista que está pensando em tudo menos que tem que parar quando nos vê! Na faixa, ou não.

Então, neste mês de maio, vamos vestir óculos amarelos e enxergar que cidadania começa e termina na maneira como tratamos o outro, principalmente quando o outro está a pé e você não! Vamos nos despir das couraças metálicas que incentivam o famoso “ninguém está vendo” então “eu vou fazer assim mesmo”. Porque não é somente o Estado que por dever tem que manter a Lei e a Ordem! O Estado é construído por você, por mim, por nós! Não dá pra por um amarelinho em cada esquina! O que dá pra fazer é olhar se em cada esquina tem uma pessoa, sim, assim como você pode estar um dia, querendo atravessar a rua.

Danilo Martire.